sábado, junho 24, 2006


Há várias luas que não sinto o teu cheiro. Dantes, quando a distância era apenas ditada pela nossa vontade, bastava-me inspirar um pouco mais fundo e seguir a direcção do vento para te apanhar no ar. Ou então procurava na bola dourada que Deus pendurou no Céu o caminho mais curto nos reflexos dos raios para te encontrar, e num instante mergulhávamos juntos.
Era o tempo em que corríamos muito depressa e era sempre pouco porque podia ser o último e por isso nunca nos cansávamos de correr atrás dele. Era o tempo em que o nada era tudo, as palavras silenciavam-se mesmo à porta de casa e a música ia dizendo que não sabíamos explicar e nem queríamos esquecer. Nesse tempo, eu fingia que já não me doía a distância e tu convencias-te que era melhor assim… E depois, quando era obrigada a regressar ao mundo dos mortais e o Sol me aconchegava os ombros à saída, respirava fundo e apertava as mãos com muita força, enterrando as unhas na palma da mão inversa, para esquecer as tuas mãos na minha pele, a tua boca na minha testa, o teu olhar dentro do meu. Foram tempos difíceis, eu a olhar para a Lua e a encher-me de luz só para te ver e tu a planear a tua vida sem mim…
Depois de partires, aprendi a esquecer-te na ruas da cidade, descobri que afinal o oxigénio também me alimentava os pulmões mesmo sem o teu ar e que afinal o Sol brilhava da mesma maneira e o vento que me batia na cara era mais doce e sereno. Aos poucos, sem saber bem nem como nem porquê, o coração e o corpo foram aprendendo o encanto do sossego e as noites deixaram de ser longas.
Não sei se te esqueci, parece-me que não é bem isso, nem deixei de te amar, porque aqueles que amámos nunca se vão embora, é como se vivessem para sempre dentro do nosso coração. Não sei se a pele da palma das mãos voltaria a secar só de pensar que te podia ver outra vez, ou se os joelhos indiciariam subidas e descidas involuntárias num ligeiro ataque de pânico se nos cruzássemos na rua… Não sei como é a vida, o dia de hoje, o próximo minuto, o instante que se segue. O meu coração, ou o teu, podem de repente deixar de bater, nada é certo e seguro, nada se agarra a não ser por escassos instantes e a vida ensina-nos num treino doloroso a aceitar na perda uma vantagem qualquer, mas quando a Lua se enche e me apanha desprevenida num regresso a casa, olho-a consolada e cheia e volto a sentir a mesma ansiedade, e o teu cheiro regressa trazido pelo vento que sopra outra vez mais forte e eu volto a sentir um fio, tenso e invisível, um fio que imagino inquebrável e eterno onde o meu desejo se estica até ao limite do prazer e é quase como se te apanhasse no ar e mergulhássemos outra vez juntos num mundo só nosso.

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Oh! Adorei a envolvencia do texto mas queria que isso fosse mais um assunto do passado. Eu sei que um amor como o vosso não se esquece de um dia para o outro e que ficará sempre a ferrugem no teu coraçaozito, mas... go on! Nao estas tao bem agora, para que esta hora de nostalgia?? :p

Eu sei, eu sei, eu sei, eu seeeeiii!!!!

beijokinhas meu doce, fica bem

11:30 a.m.  

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